A
TRAJECTÓRIA POLÍTICA DE
ÁLVARO HOLDEN ROBERTO,
O PAI DO NACIONALISMO
ANGOLANO
ÁLVARO
HOLDEN ROBERTO, nasceu em Mbanza Kongo, ex-São Salvador, província do
Zaire, aos 12 de Janeiro de 1923. É filho de Garcia Diasiwa Roberto e de
Joana Helena Lala Nekaka. Álvaro Holden Roberto fez os seus estudos
primários e secundários em Léopoldville e é cristão baptizado pela Igreja
Baptista (Baptist Missionary Society), que chegou a Angola em 1878.
No quadro
da sua formação política, Álvaro Holden Roberto frequentou tanto em
Léopoldville como no Ghana, vários cursos de Ciências Políticas, incluindo
um estágio político-diplomático na Representação Diplomática da República
da Guiné Konakry nas Nações Unidas, em Nova York, de 1959 a 1960.
Mais
tarde, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas decidiu a audição dos
peticionários dos territórios ainda colonizados, Álvaro Holden Roberto foi
muitas vezes ouvido como Peticionário sobre Angola na Comissão das Tutelas
denominada 4ª Comissão. Cada vez que ele aparecia, a delegação portuguesa
retirava-se da sala em sinal de protesto, posto que Portugal não aceitava
que as suas colónias fossem consideradas como tal, mas como províncias
ultramarinas tanto mais que aí reinava a paz, afirmavam eles.
Os
acontecimentos de 4 de Janeiro, 4 de Fevereiro e sobretudo os de 15 de
Março de 1961, destruíram a argumentação portuguesa que já não teve
coragem para prosseguir com as suas elucubrações.
Para
melhor compreender a trajectória política de Álvaro Holden Roberto,
deve-se recuar no tempo e no espaço.
Com
efeito, ele é neto de MIGUEL NEKAKA (avô materno) um dos primeiros
Evangelizadores angolanos, baptizado em 23 de Maio de 1889, que traduziu
partes significativas da Bíblia de Inglês para o Kikongo e compôs
numerosos hinos protestantes.
Miguel
Nekaka era antes de tudo um patriota que defendia os direitos dos seus
compatriotas, o que lhe valeu a hostilidade, a prisão e torturas por parte
das autoridades coloniais portuguesas, mas graças à sua clarividência e
resistência, conquistou o respeito e a estima do povo, dos missionários
britânicos e de outros instalados nas actuais províncias do Uige e do
Zaire.
Miguel
Nekaka, que havia sido acusado falsamente de desempenhar um papel
fundamental nos preparativos da Revolta dos Angolanos contra o poder
colonial português, liderada por TULANTE BUTA (Tulante significa em
Kikongo tenente, patente que Buta possuía no Exército Português no tempo
da Monarquia em Portugal). A guerra que durou de 1913 a 1915, e Miguel
Nekaka foi duramente torturado pelas autoridades portuguesas. As
injustiças de que foi vítima e as torturas que foram infligidas a Miguel
Nekaka às quais sobreviveu, graças à sua robustez física, suscitaram nele
um forte sentimento de revolta e de vingança, que o levou a fazer o
seguinte pronunciamento: UM DOS MEUS DESCENDENTES VINGAR-ME-Á!
Miguel
Nekaka faleceu em 1944.
Esse
descendente mencionado no pronunciamento de Miguel Nekaka, não é senão
ÁLVARO HOLDEN ROBERTO, seu neto, filho primogénito de sua filha JOANA LALA
HELENA NEKAKA.
Em 1940,
Dom Pedro VII, Rei do Kongo visitou Lisboa para participar na exposição do
“Mundo Português”, para comemorar o oitavo centenário da proclamação do
Reino de Portugal (1140), e o terceiro centenário da restauração da
independência da anexação espanhola (1640). Enquanto esteve em Lisboa, ele
pediu mais escolas para o seu povo e nomeou como seu secretário Manuel
Sidney Barros Nekaka, filho de Miguel Nekaka, que estava em Lisboa num
programa de especialização de dez meses num hospital.
De acordo
com Manuel Sidney Barros Nekaka, os oficiais do governo português
rejeitaram o pedido, argumentando que estavam seguros de que as vantagens
educacionais no seu reino eram adequadas. Contudo, estavam predispostos
para mais algumas escolas se o rei estivesse com vontade de realizar
novos acordos com Portugal. Dom Pedro VII receando que tais acordos
conduzissem a exigências para mais contratos de “trabalhadores”, a exemplo
dos contratados para São Tomé, recusou envolver-se em novos
compromissos.
Manuel
Sidney Barros Nekaka nasceu em 28 de Julho de 1914, em S. Salvador,
enquanto seu pai estava ainda na prisão. Ele foi para a escola da missão
baptista e depois trabalhou no hospital de B.M.S. de 1934 a 1937, onde se
tornou um enfermeiro eficiente. Em 1937, continuou com uma formação
posterior como assistente médico no Instituto Curry, na missão
Congregacional Americana, em Dondi, perto de Nova Lisboa (Huambo). Foi
dali que ele partiu para Lisboa em 1940 para trabalhos práticos. De volta
a S. Salvador, em 1941, continuou a trabalhar no hospital da B.M.S.
simultâneamente com a sua função de conselheiro do rei D. Pedro VII.
Dom Pedro
VII, frustrado com a recusa portuguesa em providenciar escolas, pediu a
Manuel Sidney Barros Nekaka, que partiu de S. Salvador em Março de 1942
para trabalhar em Leopoldville, para que tentasse mobilizar a assistência
da diáspora angolana no Congo Belga. Durante os anos 50, Manuel Sidney
Barros Nekaka, a quem mais tarde se veio juntar o seu sobrinho Holden
Roberto, pediu apoio aos exilados angolanos para a formação de um partido
político mas teve pouca adesão. A proibição Belga quanto a organizações
políticas, até certo ponto, inibiu as suas actividades, mas eles
conseguiram estabelecer contactos com o grupo dos exilados angolanos de
Matadi, o que finalmente levou à formação do primeiro partido político
angolano, em 7 de Julho de 1954, simultâneamente em Léopoldville e na
cidade portuária congolesa de Matadi, a UNIÃO DOS POVOS DO NORTE DE ANGOLA
– UPNA, que incluía pessoas de várias origens do Norte geográfico de
Angola, animados pelos Senhores Pinnock Eduardo e Borralho Lulendo. A UPNA
foi progenitora da histórica e gloriosa UNIÃO DAS POPULAÇÕES DE ANGOLA
(UPA).
Convém
sublinhar que a UPNA teve uma existência efémera conquanto alguns anos
depois, precisamente em 7 de Dezembro de 1958, foi substituída pela UPA.
A
situação geográfica de Matadi (porto fluvial situado num dos maiores rios
de África, o Zaire), privilegiou a expansão de material de propaganda da
UPA no interior de Angola, através dos marinheiros negro-americanos que
frequentavam os militantes da UPA.
Um desses
marinheiros negro-americanos, chamado George Barnett, que conhecia
perfeitamente Lobito e as pessoas que viriam a formar a célula da UPA
naquela cidade, era o portador do dito material que foi sendo
recepcionado pelas referidas pessoas que são Jorge Valentim (ex-Ministro
do GURN por parte da UNITA), Moisés Kayaya, Tadeu, Adão Kapilango,
Lourenço (pai do actual Vice-Presidente da Assembleia Nacional, João
Lourenço) e outros.
Assim,
nascia na cidade de Lobito, a primeira célula clandestina da UPA no sul de
Angola.
O
Primeiro Presidente eleito da UPA foi Álvaro Holden Roberto.
Do seu
avô, Álvaro Holden Roberto herdou a dignidade e a perseverança; do tio a
paciência, o tacto diplomático, o gosto pelas línguas e a eloquência. Com
efeito, Manuel Sidney Barros Nekaka falava fluentemente português, francês
e inglês. Holden Roberto seguiu-lhe a peugada.
A PARTIDA PARA O GHANA DE NKWAME NKRUMA
A
preparação da viagem ao Ghana iniciou num contacto que teve lugar em
Leopoldville, em Março de 1957, entre o futuro Presidente da Tanzânia
Professor Dr. Julius Nyerere, de viagem para Accra, onde ia assistir a
proclamação da Independência do Ghana e o Senhor Manuel Sidney Barros
Nekaka, acompanhado por Álvaro Holden Roberto, no Hotel Regina.
Depois de
uma análise da situação que prevalecia em Angola, o Presidente Nyerere,
que já estava informado pelo Rev. George Houser, através dos diferentes
contactos com Álvaro Holden Roberto, sugeriu que o problema deveria ser
submetido à Conferência que teria lugar em Accra, Ghana, visto que a
natureza do colonialismo português não era bem conhecida no mundo. Aliás o
mesmo prometeu interceder junto do Presidente Nkrumah a favor da
participação de um delegado da UPA, na Primeira Conferência dos Povos
Africanos.
A pessoa
escolhida para liderar esse titânico trabalho político foi Álvaro Holden
Roberto que, na altura, já mantinha uma correspondência seguida com os
líderes da Fellowship of Reconciliation e da American Committee on Africa
duas ONGs que funcionavam junto das Nações Unidas em Nova York, onde
figuravam como membros de honra personalidades como Reverendo Metodista
George Houser, o Professor Universitário Dr. John Marcum, o Bispo Homer
Jack, da Igreja Unida da América e Canadá. Este último era um dos grandes
activistas contra a segregação racial nos Estados Unidos, durante muitos
anos e foi também a pessoa que introduziu Álvaro Holden Roberto junto do
Presidente John Kennedy, (então Senador), em Setembro de 1959.
Todos os
que foram citados, constituiram um suporte de grande valia para o início
dos trabalhos que Álvaro Holden Roberto desempenhou nos primeiros dias.
A razão
que levou Álvaro Holden Roberto a encontrar-se com o Senador Kennedy, foi
o discurso pronunciado por este, em 1957, no Senado americano, sobre a
guerra argelina, durante o qual apoiou o direito do povo argelino à
auto-determinação. Depois desse encontro, Álvaro Holden Roberto ficou
mais encorajado.
Assim, em
10 de Setembro de 1958, sem nenhum documento legal de viagem, salvo um
bilhete de identidade como oriundo de Cabinda, adquirido em Brazzaville,
Álvaro Holden Roberto atravessou o rio Zaire, proveniente de Léopoldville,
em direcção ao Congo Brazzaville onde as células da UPA encarregaram-se
do seu acolhimento.
De
Brazzaville, Álvaro Holden Roberto parte para Ponta Negra onde embarca
clandestinamente num navio francês, o Général Mangin, que rumava para os
Camarôes, na altura ainda colónia francesa em guerra.
Foi uma
história interessante, porquanto Álvaro Holden Roberto não possuía
documentos legais que lhe permitissem deslocar-se ao estrangeiro. Foi,
pois, graças à sua fé cristã, que ele passou pelos oficiais de imigração
em Ponta Negra, partindo assim para os Camarões, donde seguiu para Nigéria
a caminho do Ghana de Nkwame Nkrumah.
É,
precisamente nos Camarões onde começa a verdadeira odisseia de Álvaro
Holden Roberto, visto que era preciso encontrar guias de confiança capazes
de o levarem até a próxima etapa que era a Nigéria.
Sempre
acompanhado pelos anjos do Senhor em quem confiava profundamente, Álvaro
Holden Roberto encontra-se com elementos da União das Populações dos
Camarões (UPC) de Um Yobé e Félix Moumié, que conduziam uma luta de
guerrilha contra o poder colonial francês. Com a recomendação do Maurice
Kwam, natural dos Camarões e adjunto do Abade Fulbert Youlou, então
Presidente da Câmara Municipal de Brazzaville e mais tarde Presidente da
República do Congo Brazzaville, junto desses emissários camaroneses,
obteve-se a tão esperada ajuda na travessia da fronteira a pé. Foi um
grande risco devido as patrulhas militares caninas conjuntas ao longo da
fronteira entre os dois Camarões, franceses e britânicos, antes da sua
reunificação depois da independência.
O líder
camaronês Um Yobé foi abatido pelas tropas francesas precisamente no
momento em que Álvaro Holden Roberto se encontrava perto dos seus
guerrilheiros. Esse foi um momento de extrema preocupação pela sua vida,
mas, graças a Deus, tudo passou bem.
Solidarizando-se com Álvaro Holden Roberto e com a União das Populações de
Angola, que também conduzia uma luta política contra o poder colonial
português, os emissários da União das Populações dos Camarões,
prontificaram-se a conduzi-lo até Kumba e Ntiko (Camarôes britânicos) a
caminho da Nigéria.
Informado
da presença de Álvaro Holden Roberto na Nigéria o Presidente Nkwame
Nkrumah, deu instruções ao seu Alto Comissário do Ghana na Nigéria,
título que equivale nos países da Commonwealth a Embaixador, recentemente
instalado, contactou o Chefe Autóctone da Polícia de Emigração no
Aeroporto de Lagos (Nigéria), o qual facilitou a entrada de Álvaro Holden
Roberto no avião com destino ao Ghana sem ter sido submetido a quaisquer
formalidades aeroportuárias.
A viagem
de Ponta Negra (Congo Brazzaville) à Accra (Ghana) durou 15 dias, ou seja,
de 12 de Setembro, data do embarque a bordo do General Mangin a 27 de
Setembro do mesmo ano.
Durante 3
meses, Álvaro Holden Roberto esperou em Accra pela Conferência,
trabalhando no Bureau of African Affairs, dirigido por George Padmore,
Conselheiro Político do Presidente Nkwame Nkrumah, sob a chefia de James
Markham, Secção Austral.
Assim,
Álvaro Holden Roberto teve a possibilidade de participar na primeira
Conferência dos Povos Africanos que se realizou de 6 a 13 de Dezembro de
1958 em Accra, capital da jovem República do Ghana, na qualidade de
enviado da União das Populações de Angola, onde conheceu Tom Mboya do
Quénia, Kenneth Kaunda da Zâmbia, Joshua Nkomo do Zimbabwe, Frantz Fanon
do Governo provisório da Argélia, Kamuzu Banda do Nyassaland, hoje Malawi
e outros líderes africanos.
Pela
primeira vez, a África e o resto do mundo ouvem falar da vontade do povo
angolano de ser livre e independente e, são informados dos graves
atropelos aos direitos humanos e dos povos, cometidos pelos colonos
portugueses, tais como os trabalhos forçados, a espoliação das terras aos
autóctones, as palmatórias e os desterros.
Estava
assim lançada a mensagem da UPA que iria mobilizar consideráveis apoios
políticos e diplomáticos não só de África mas também de outras partes do
Mundo, amantes da justiça e da liberdade.
Durante
os debates constatou-se uma certa divergência entre os conferencistas
sobre a via a adoptar, na luta de libertação, pacífica ou violenta. Dado
que a revolta dos Mau Mau do Quénia que foi controlada pelas autoridades
britânicas com a prisão dos principais líderes, a cabeça dos quais se
encontrava o Patriarca Jomo Kenyata, e sobretudo a guerra dos argelinos
contra os colonos franceses em curso, estes factores dificultavam a
adopção da via pacífica, porque condenariam automaticamente aqueles que
pegaram ou viriam a pegar em armas para se libertarem.
A
profética intervenção de Frantz Fanon que defendeu a legítima violência ou
seja a utilização da violência em legítima defesa, tendo baseado a sua
argumentação no caso das colónias portuguesas, com destaque para Angola,
cujos territórios constituíam para os portugueses colónias de povoamento e
de exploração, bem como o caso da Argélia que se encontrava nas mesmas
condições, influenciou a Conferência à adoptar uma fórmula denominada
Positive Action (Acção Positiva), que permitia a cada povo de escolher a
via que mais lhe convinha para se libertar.
No fim da
primeira Conferência dos Povos Africanos, Álvaro Holden Roberto, com o
pseudónimo de José Gilmore, foi eleito Membro do Steering Committee
(Comité Director), título que lhe foi reiterado na segunda Conferência de
Tunis, apesar das manobras de corredor dos elementos do Movimento
Anticolonial (MAC).
Logo que
o governo colonial português tomou conhecimento da mensagem, iniciou
contactos com o governo colonial belga e como consequência disso, o pai de
Álvaro Holden Roberto e o seu tio Manuel Sidney Barros Nekaka, foram
interpelados pela polícia colonial belga, sem no entanto terem sido
molestados ou encarcerados. A sua defesa era que Álvaro Holden Roberto era
maior e não tinha que se justificar junto dos seus familiares sobre o seu
destino ou sobre os seus actos.
Patrice
Emery Lumumba que fazia parte do Conselho Executivo do Governo de
Transição do Congo Belga, foi o grande defensor dos parentes de Álvaro
Holden Roberto.
Logo que
tais interpelações foram conhecidas, vários amigos de Álvaro Holden
Roberto aconselharam-no a não regressar a Léopoldville, actualmente
Kinshasa. Um deles era Faustin Nzeza, com o qual jogava na selecção
congolesa de futebol em Léopoldville, e que trabalhava no gabinete do
último Governador Geral do Congo Belga, Senhor Henri Cornelis.
Álvaro
Holden Roberto tinha chegado à Accra antes de Patrice Lumumba e ajudou a
organizar a vinda deste último com o qual tinha uma profunda amizade.
Foi
durante esta oportunidade que ambos encontraram o Senhor Fanon (que nasceu
em Martinique, Antilhas, tendo se naturalizado argelino e estava a
participar na luta de libertação da Argélia) o qual estava muito
interessado no problema congolês e angolano. É de salientar que os seus
antepassados eram oriundos da região dos Dembos (Norte de Angola),
revelação que o mesmo fez à Álvaro Holden Roberto algumas horas antes da
sua morte, a 6 de Dezembro de 1961, no Hospital de Bethesda, perto de
Washington (Estados Unidos da América), na sequência de uma leucemia.
Este
irmão deixou-nos um importantíssimo legado histórico de várias obras de
carácter revolucionário sobre o terceiro mundo, destacando-se a sua última
obra intitulada ‘os Condenados da Terra’, publicada em 1961 alguns dias
antes da sua morte.
Foi assim
que mais tarde, Frantz Fanon se dedicou ao problema angolano e envolveu-se
directamente no levantamento do 15 de Março de 1961, porque tendo ele
pedido a Lúcio Lara do MAC, que ele já conhecia, 11 elementos a fim de
serem treinados na guerrilha e, este último não tendo sido capaz de os
fornecer, alegando que todos os seus homens estavam detidos, mas Frantz
Fanon que não era ingénuo, deduziu logo que Holden era o homem das massas
em Angola (vide Um Amplo Movimento, página 238-239, de Lúcio Lara).
Com
efeito, durante a sua curta estadia em Kinshasa em Agosto de 1960, os
Combatentes Pedro Vida, Manuel Cosmo, Manuel Lelo, Pedro Sadi, Manuel
Bernardo, Tusamba Kwa Nzambi, Pedro Massumu e outros, tiveram a
oportunidade de encontrar e de ouvir de Fanon os ensinamentos e
encorajamentos que dinamizaram o seu espírito e a sua combatividade para
o 15 de Março de 1961. Os pioneiros Pinnock Eduardo, Borralho Lulendo,
também encontraram-no.
O
primeiro chefe das operações de guerrilha da UPA o alferes João Baptista
Traves Pereira, natural do Cunene, fazia parte do grupo.
Dotado de
uma forte personalidade e particularmente persuasivo, Fanon não deixava
ninguém indiferente. É assim que o encontro foi histórico e decisivo. Mais
tarde, a UPA beneficiando da ajuda e influência de Fanon e de seus amigos
da FLN, como Omar Oussedik e do próprio Chefe do Estado Maior da FLN, o
Coronel Boumedienne, mais tarde Presidente da República da Argélia,
conseguiu enviar à principal base fronteiriça de Ghardemaou, na Tunísia,
cerca de 20 guerrilheiros para serem formados. Todos eram soldados
angolanos desertores do exército colonial português que tentava em vão
defender Goa, Damão e Dio, na Índia, donde tinham sido repatriados depois
de derrotados e feitos prisioneiros.
Álvaro
Holden Roberto permaneceu por breves períodos na base de Ghardemaou. Por
conseguinte, a criação da Base de Kinkuzu da FNLA, na República do Zaire
(actual RDC) foi uma inspiração da dita base.
É de
recordar que, em 1959 Álvaro Holden Roberto viaja para os Estados Unidos
da América via Ghana como membro da delegação da Guiné Conakry, para nas
Nações Unidas ser Peticionário junto do Conselho de Tutela da ONU (4ª
Comissão) para denunciar o colonialismo que recusava obstinadamente
descolonizar África e sobretudo Angola. A 14ª sessão da Assembleia Geral
da ONU critica e condena a política ultramarina portuguesa e faz uma
petição a Portugal no sentido de dar a conhecer a evolução das medidas já
tomadas e previstas no artigo 73ª da Carta das Nações Unidas, tendo em
vista a autodeterminação dos territórios africanos ainda sob a sua
administração.
No fim
das sessões, Álvaro Holden Roberto cruzava-se as vezes nos corredores das
Nações Unidas, com os representantes de Portugal, nomeadamente o Dr.
Franco Nogueira, Ministro dos Negócios Estrangeiros e o Dr. Vasco Garin,
Embaixador na ONU. A imprensa portuguesa aborrecida com as declarações de
Holden Roberto, condenando o trabalho forçado nas colónias portuguesas
particularmente em Angola, tinha lhe mandado tomar um ASPRO para acalmar a
dor de cabeça que Holden Roberto supostamente tinha. ASPRO significava
aliança entre a África do Sul (AS), Portugal (P) e Rodésia (RO). Era uma
aliança militar, chamada na altura Impie Alliance (Aliança Ímpia).
Depois
da Segunda Conferência dos Povos Africanos que se realizou de 25 a 31 de
Janeiro de 1960, o Presidente Bourguiba da Tunísia, onde teve lugar essa
Conferência, numa recepção aos Congressistas encorajou-os a pegarem em
armas, se necessário fosse, porque todos os meios a utilizar e todas as
formas a empregar eram válidas para que os Povos se libertassem da
escravatura. O que contava era o resultado. Nesse encontro com Bourguiba,
estavam presentes os membros do MAC – Movimento Anti-Colonial ( o MPLA
ainda não existia), nomeadamente Lúcio Lara, Viriato da Cruz, angolanos,
Hugo de Menezes, Santomense, o guineense Amílcar Cabral e Luís Araújo de
Cabo Verde.
A um
certo momento, Bourguiba tinha perguntou donde vínham os seus convidados
e à resposta do grupo constituído pelas pessoas supracitadas e por Holden
Roberto de que eram originários de Angola, teve a reacção seguinte,
citação: «Vocês são colonizados por Portugueses? Então com esses é preciso
mesmo pegar em armas porque, tal como eu, nas suas veias corre sangue
árabe que os torna teimosos» fim de citação.
Algumas
semanas depois, Álvaro Holden Roberto regressou à Tunísia para se
encontrar com Bourguiba a fim de lhe pedir armas. E esse último aceitou o
seu pedido, tendo declarado que, embora ele fosse pacifista, tratando-se
da liberdade, a mecha dava para o cebo. O transporte dessas armas
para Kinshasa, foi facilitado pelos aviões militares tunisinos que
abasteciam o Corpo Expedicinário da Tunísia, incorporado nos Capacetes
Azuis, sob o comando do Coronel Tunisino Lasmar Bouzayen. Seria bom
lembrar que o Congo, logo após a proclamação da sua independência
atravessou um período de turbulências político-sociais que necessitaram da
presença de uma força internacional de intervenção. O maior lote do
armamento era automático e necessitou assim de um treinamento dos
elementos que o iriam manejar. A vasta cave da Chancelaria da Tunísia em
Leopoldville, serviu de local de treino, protegido por dezenas de sacos de
areia. É de salientar, que a ajuda da Tunísia sob a liderança de
Bourguiba, na guerra de libertação nacional angolana, foi capital, tanto
no apoio logístico como na formação de quadros civis e militares.
Em meados
de 1960, Álvaro Holden Roberto foi eleito Presidente da UPA. Nascia assim
o líder clarividente, perseverante e determinado da União das Populações
de Angola.
Em
Dezembro de 1960, os países africanos, asiáticos e da Europa do leste,
patrocinaram uma resolução preconizando o fim do colonialismo.
Depois de
vários contactos nos corredores das Nações Unidas, a ideia foi corroborada
e apoiada pela maioria das delegações, incluindo os Estados Unidos, cujos
membros, nos corredores diziam que os Estados Unidos tendo sido
colonizados, iriam apoiar esta resolução.
Aconteceu
que, o Primeiro Ministro britânico Mac Millan e o General de Gaulle,
Presidente da França telefonaram ao General Eisenhower, Presidente dos
Estados Unidos, dizendo que encontravam-se muito embaraçados pelo projecto
de resolução, e que iriam votar contra porque não tinham ainda uma solução
pelos casos da Rodésia do Sul e da Argélia onde havia convulsões e guerra.
Perante a
situação embaraçosa dos seus mais próximos aliados, a delegação americana
sob instruções da Casa Branca absteve-se. Também certos países amigos da
Inglaterra e da França votaram contra ou abstiveram-se.
Quando a
resolução foi votada, ela passou maioritariamente, sob frenéticos
aplausos.
Foi assim
que houve uma cena humorística entre os dois chefes das delegações
americana e soviética. Na delegação americana havia uma cantora negra
chamada Amália Jackson, que saltou de alegria devido a condenação
esmagadora do colonialismo. O chefe da delegação soviética, o Embaixador
Zorine, observou e levantou-se da sua bancada, foi zombar do seu homólogo
americano, dizendo: Citação: “Colega, não sabíamos que afinal vocês tinham
rebeldes na vossa bancada. Viu o que aconteceu depois do voto?” Fim de
citação.
Ao
Embaixador americano de responder: Citação: “sim, sabemos que temos
rebeldes nas nossas fileiras, que se podem exprimir abertamente, isso nos
orgulha. Mas convosco, não teria acontecido, porque ela seria degolada”.
Fim de citação.
Com esta
resolução deu-se o toque da derrota do colonialismo, visto que os países
colonialistas inveterados, tais como Portugal estavam logo no banco dos
réus, até as independências.
Meses
depois, exactamente em 15 de Março de 1961, a UPA sob a liderança de
Álvaro Holden Roberto, inicia a luta armada de Libertação Nacional que
culminaria com a assinatura do Acordo da Independência celebrado entre os
três Movimentos de Libertação, a FNLA, o MPLA e a UNITA, por um lado e
Portugal por outro lado, em 15 de Janeiro de 1975, em Alvor, Portugal. A
Cimeira de Alvor decorreu de 10 a 15 de Janeiro de 1975, em Alvor,
Portugal, no Hotel da Penina. O acordo postulou que a independência
deveria ocorrer em 11 de Novembro de 1975, data proposta pela FNLA.
O Acordo
de Alvor foi uma obra elaborada unicamente pela FNLA. Os principais
actores e obreiros desse acordo forjado durante os 14 anos da luta foram
os irmãos, Johnny Eduardo, Mateus Neto, Paulo Tuba, Holden Roberto, Samuel
Abrigada, Ngola Kabangu, Hendrick Vaal Neto e Demba Resende Diop e, foi
posteriormente adoptado por todos os signatários, a saber o MPLA, a UNITA,
a FNLA (autora) e Portugal.
A única
contribuição do MPLA, feita pelo Dr. Agostinho Neto, foi a introdução do
sistema rotativo de governação transitória, o Colégio Presidencial.
Durante a
guerra de libertação nacional e atendendo às exigências conjunturais, foi
formada em 27 de Março de 1962, a FRENTE NACIONAL DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA,
FNLA, resultado da fusão da UPA e do PDA (Partido Democrático Angolano).
Em 5 de
Abril de 1962 com a formação do Governo Revolucionário de Angola no Exílio
(GRAE), Álvaro Holden Roberto torna-se no Primeiro Ministro do primeiro
Governo de Angola no exílio, que em Agosto do mesmo ano foi reconhecido
pela OUA e por 32 países africanos e 2 asiáticos.
A
presidência da FNLA foi assumida por Álvaro Holden Roberto, tendo sido
reeleito em Março de 1976 pelo 1º Congresso realizado na República do
Zaire, em Kinshasa e pela Conferência Nacional que teve lugar de 27 a 31
de Julho de 1992 em Luanda, e finalmente pelo Congresso da Unidade e da
Esperança realizado de 15 a 18 de Maio de 2000 em Luanda.
Em 16 de
Agosto de 1962, com a criação na histórica Base de Kinkuzu, na República
do Zaire (actual RDC), do glorioso Exército de Libertação Nacional de
Angola –ELNA-, Álvaro Holden Roberto torna-se Comandante em Chefe e o
Comandante José Kalundungo, o primeiro Chefe do Estado Maior do ELNA.
Em 1964,
Che-Guevara contacta Holden Roberto, com vista a apoiar com homens a
guerra de guerrilha movida pela FNLA. Holden Roberto nega dizendo-lhe que
a luta levada a cabo pela FNLA, era uma luta de libertação nacional e que
os seus combatentes eram nacionalistas e não internacionalistas, porque
esses últimos poderiam mais tarde criar problemas ao seu movimento e ao
povo, alusão feita aos corpos expedicionários que esvaziam do território
que ajudam, os materiais industriais e outros, transferindo-os para os
seus respectivos países, tais como as açucareiras, veículos e outras
fábricas extremamente necessárias à produção local e poderiam até
desvirtuar a essência patriótica angolana.
Em 10 de
Outubro de 1974, Álvaro Holden Roberto encabeça a delegação da FNLA nas
conversações com a delegação do Governo Português, em Kinshasa, com vista
a pôr fim às hostilidades em Angola, entre a FNLA e o exército português.
O acordo de suspensão das hostilidades foi assinado no iate do Presidente
Mobutu Sese Seko do Zaire, entre Álvaro Holden Roberto e o General Fontes
Pereira de Melo, Chefe da Casa Militar do Presidente da República
Portuguesa, o General Francisco da Costa Gomes, acompanhado por uma
delegação de 8 pessoas, algumas vindas de Luanda, como é o caso de
Comodoro Leonel Cardoso, posteriormente último Alto Comissário em Angola,
General Gonçalves Ribeiro, Major Pedro Pezarat Correia, Major Cabarrão,
Chefe do SIM em Angola.
Uma
semana após o fim da Cimeira de Alvor, Álvaro Holden Roberto na qualidade
de Comandante-em-Chefe do ELNA, apresentou e libertou os últimos 23
militares portugueses capturados em combate durante a luta de libertação
nacional. Esta cerimónia decorreu na Base de Kinkuzu, na República do
Zaire (actual RDC), na presença das autoridades zairenses, do Corpo
Diplomático acreditado naquele país e do Delegado da Cruz Vermelha
Internacional.
No quadro
do combate pela paz e realização da Reconciliação Nacional, Álvaro Holden
Roberto, endereçou de Paris uma carta, em 4 de Dezembro de 1987, durante
o seu exílio, ao Presidente José Eduardo dos Santos e ao líder da Unita,
Jonas Malheiro Savimbi, que se tornou célebre e histórica, porquanto ela
serviu de base para a elaboração do primeiro plano de paz para Angola,
concebido por um líder angolano.
Esse
plano de paz foi divulgado em Janeiro de 1990 em Paris durante uma
conferência de imprensa. Foi precisamente esse plano de paz que serviu de
base para a elaboração dos Acordos de Bicesse, cujas cópias foram enviadas
ao Presidente José Eduardo dos Santos, ao líder da Unita, Jonas Malheiro
Savimbi, aos Governos de Portugal, dos Estados Unidos e da Rússia.
Desde
então, Álvaro Holden Roberto, tem se dedicado ao combate pela paz e pela
realização da Reconciliação Nacional, preconizando a via do diálogo
nacional para a solução do imbróglio angolano.
Em 22 de
Outubro de 2004, Álvaro Holden Roberto foi reconduzido, à presidência,
pelo Congresso da Reconciliação da FNLA, realizado de 18 a 22 de Outubro
de 2004, nas instalações da Filda em Luanda.
Presentemente, Álvaro Holden Roberto está a finalizar a redacção das suas
memórias que todos esperam, sejam um valioso contributo para a história
contemporânea de Angola.
CENTRO DE INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA
DA F.N.L.A.