Discurso proferido pelo Irmão Álvaro Holden Roberto, Presidente da FNLA,
por ocasião da celebração do 46º Aniversário do Início da Luta Armada de
Libertação Nacional, no Teatro Avenida, aos 17 de Março de 2007
Distintos
Convidados,
Minhas Irmãs,
meus irmãos,
Caros
Militantes, Simpatizantes e Amigos,
Povo de Angola,
Mais uma vez na
nossa História voltamos a celebrar o 15 de Março, a data que abalou o
Império Português e marcou o início do fim do regime ditatorial da
metrópole portuguesa, assim como do odioso regime colonial que vigorava em
Angola, Guiné-Bissau, São João Baptista de Ajudá, Moçambique, S.Tomé, Cabo
Verde e Timor. Tudo caiu como um baralho de cartas mas o primeiro impulso
que teve sucessivos efeitos nacionais e internacionais foi a Revolta de 15
de Março de 1961.
É uma data que
nos orgulhamos particularmente na UPA-FNLA, na medida em que somos os
sucessores directos da UPA, o movimento nacionalista que desencadeou
aquela formidável revolta que a ferro, fogo e sangue mudou o curso da
Historia.
Mas somos também
orgulhosos desta data como Angolanos, independentemente do Partido que
representamos, porque a Revolta do 15 de Março não pertence a ninguém em
particular mas a todos nós Angolanos que queríamos ardentemente a nossa
Independência Nacional e lutámos como David contra Golias, com as armas
que tínhamos contra um arsenal de enormes proporções de que dispunha o
regime colonial e as suas forças armadas.
Ao mesmo tempo
que celebramos o 15 de Março, neste seu quadragésimo sexto ano, não
podemos deixar de lamentar profundamente que esta data que abriu caminho a
todos nós Angolanos sem excepção para a sua Liberdade e para retorno ao
domínio da sua Terra, não seja ainda uma FESTA NACIONAL.
Lamentamos
igualmente, a perda de um dos maiores obreiros do 15 de Março, o irmão
Pedro Vida Garcia, que nos deixou no dia 28 de Fevereiro passado, pelo que
peço a todos que estejamos de pé e observemos um minuto de silêncio em sua
memória… Muito obrigado.
Festejamos o Ano
Novo, festejamos os nossos Mártires de 4 de Janeiro, festejamos o 4 de
Fevereiro, festejamos o dia Internacional da Mulher, festejamos a Paz
alcançada depois de uma guerra civil devastadora, celebramos o dia de
África, o nosso Continente, festejamos o dia Internacional da Criança,
festejamos o dia do Herói Nacional, festejamos ou choramos os nossos
Mortos e festejamos naturalmente a nossa Independência e o Natal e tudo
isso é justo, mas não podemos deixar de perguntar, porquê então não
celebramos também o dia em que os Angolanos, de armas na mão, abriram o
caminho da vitória sobre o regime colonial português.
Será que o MPLA
no poder desde a data da Independência Nacional acha que esse dia teria
chegado para eles também sem o 15 de Março?
Será que o
Presidente José Eduardo dos Santos, o seu Governo e a Assembleia Nacional
não têm uma palavra a dizer perante o sacrifício e o passo gigantesco que
o nosso povo deu nessa data rumo à sua liberdade?
Será que alguém
se envergonha das catanas de 15 de Março e apenas considera puras e
heróicas as que se ergueram em 4 de Fevereiro, quando nada, absolutamente
nada, as distinguia?
Não vou falar do
4 de Fevereiro que é uma data que todos celebramos com a mesma dignidade
de outras datas históricas. Os historiadores preocupam-se e investigam os
bastidores dessa revolta ocorrida em Luanda envolvendo muitos e diversos
nacionalistas angolanos bem conhecidos, liderados pelo inesquecível Cónego
Manuel das Neves. Todos eles estavam de alma e coração com os que no dia
15 de Março desencadearam uma guerra generalizada contra o colonialismo
português.
Como todos os
nossos heróis de 15 de Março de 1961 viveram também intensamente os
acontecimentos na capital em 4 de Fevereiro, nenhum destes acontecimentos
pode ou deve ofuscar e muito menos apagar o outro. Pelo contrário, todos
estão ligados pelo mesmo ideal de não olhar a sacrifícios humanos para dar
testemunho a Portugal e ao Mundo de uma determinação inabalável de
libertação.
A história
mostrou que foi o 15 de Março que forçou a mão de Salazar a virar-se
totalmente para Angola, quando ele disse: “Todos para Angola e em
força”.
A mesma História
mostrou como essa luta desigual e por vezes conduzida de forma separada e
incoerente pelos três Movimentos de Libertação, acabou por minar o poder
em Lisboa, conduzindo ao reconhecimento do direito à Auto-determinação,
num Acordo que prognosticava um regime democrático para Angola através de
eleições e a escolha livre dos seus dirigentes pelo povo angolano. A
história também conta que esse futuro foi adiado por uma guerra civil que
se alastrou por quase três décadas.
Hoje, graças às
eleições de 1992, Angola tem um Parlamento eleito e prepara-se para a
realização de novas eleições para eleger os seus Deputados à Assembleia
Nacional e o seu Presidente da República. Mas ao longo de todo este tempo,
a História de Angola tem sido apenas respeitada e venerada de acordo com
cartilha do Partido no poder que não mudou com as eleições de 1992.
Uma História
escrita pelos vencedores é a única explicação para o esquecimento a que o
15 de Março tem sido votado como se não fosse uma data tão gloriosa que
merecesse um feriado nacional.
O MPLA tem sobre
a mesa uma proposta de Agenda Nacional de Consenso, na qual se refere que
“deverão ser promovidas acções de carácter político, económico e cultural,
no intuito de dignificar os antigos combatentes e seus familiares, como
forma de reconhecimento social àqueles que prestaram serviços relevantes à
Pátria, contribuindo para a sua Independência, soberania e integridade
territorial”. Será que ignorar o 15 de Março não é uma forma de negar um
propósito tão justo e digno como parece?
Deixemos aqui um
apelo ao Senhor Presidente da República, à Assembleia Nacional e ao
Governo, ao MPLA e a todas as outras forças políticas no sentido de, por
consenso, se estabelecer a data de 15 de Março como Feriado Nacional,
única forma justa, humana e adequada de prestar uma sentida e merecida
homenagem a todos aqueles que abnegadamente se sacrificaram no altar da
Pátria de forma sangrenta mas nobre, porque foi sagrado o ideal que os
moveu de arrancar com violência o poder que nos violentava há tantas
gerações, materializando assim a unidade nacional.
A nossa luta
está a fazer século e é ainda com clamor dessa luta que procuramos
construir para os nossos filhos e netos uma Angola mais justa e mais
progressiva.
Também
defendemos como o defende o MPLA e penso que todas as forças políticas,
que “a paz social e a fraternidade entre os cidadãos, a estabilidade e a
eficácia das instituições, a realização plena da cidadania, bem como o
progresso material e espiritual da sociedade, representam as bases
fundamentais que devem alicerçar o compromisso de todas as filhas e filhos
de Angola no presente e para o futuro do País, dignificando assim a
abnegação e os sacrifícios da presente geração e dos nossos ancestrais”.
Porém, nesta
data que evoca mais do que qualquer outra, os sacrifícios de uma geração,
queremos dizer bem alto que serão precisas mais do que boas palavras para
sermos dignos daqueles que prepararam os dias de independência que estamos
a viver.
Serão precisas
decisões, atitudes novas perante os outros, serão precisos gestos ainda
que carácter simbólico, para que todos nos sintamos irmanados numa Angola
que continua obstinadamente a defender como sendo sua a história de um
Movimento de Libertação, que continua a venerar como heróis nacionais
apenas aqueles que militaram e lutaram nesse mesmo Movimento de
Libertação.
A Paz e a
Fraternidade entre todos os Angolanos exigem mais do que boas intenções a
envolver declarações fundamentais mas que ficam no papel, no projecto,
quando o que será mais importante é o passar à construção, aos tijolos, ao
cimento, ao concreto.
Distintos
convidados,
Minhas Irmãs,
meus Irmãos,
Povo de Angola,
Este é um ano
decisivo para o nosso Partido. Temos de virar uma página, escolher uma
nova liderança, pôr sangue novo na engrenagem do Partido, rejuvenescer os
nossos quadros pois essa será a melhor maneira de fazer face ao futuro.
Queremos um futuro em que tenhamos um papel que não envergonhe os nossos
heróis do passado que hoje, neste 15 de Março de 2007 celebramos e
homenageamos.
Precisamos, por
isso, de recentrar as nossas prioridades, procurando dar ao Partido a
consistência política, social e económica que deve caracterizar uma força
política com as aspirações que sempre nos moveram desde o início da nossa
luta. Esta tarefa envolve todos os militantes, e é para ela que hoje,
particularmente insto a todos, para se empenharem nas actividades
partidárias, de modo a estarmos prontos para dar resposta a todos os
desafios que teremos pela frente.
Muitos são os
que desanimaram ao longo destes últimos anos e procuram outros caminhos.
Há certamente muita frustração entre os nossos militantes e simpatizantes
face ao percurso difícil do nosso Partido, obrigado a um exílio
político desde 1975, passando pelo desaire eleitoral provocado pelo
desproporcional confronto de meios com que foi travado o processo
eleitoral de 1992.
Até hoje, a FNLA
continua despojada de todos os bens de que era detentora e proprietária
à data da Independência.
Todos sabemos
como um Partido sem outros meios financeiros para além dos que resultam
dos meros subsídios do Estado está impedido das suas possibilidades de
estabelecer e manter as suas redes de agentes partidários em todo o País.
A FNLA tem por isso de contar com os valores que são a vontade, a coragem
e a determinação dos seus militantes para mais uma vez na sua história
poder confrontar o gigante Golias como o fez David. Para isso não chega a
coragem e a determinação. David não teria conseguido derrubar o gigante se
não dispusesse de uma fisga e de uma pequena pedra.
A FNLA, não
dispondo ainda de todos os meios que continuam a ser-lhes devidos pelo
Estado, tem de ter um programa de acção que mobilize, que concentre e que
una todos aqueles que se identifiquem com esses desígnios. Precisamos por
isso da nossa juventude, das vossas ideias, das vossas aspirações para
pô-las ao serviço do Partido e do País.
Apesar das
eleições de 1992 e dos seus resultados, Angola conta hoje certamente com
milhões de cidadãos descontentes com as políticas seguidas pelos
sucessivos Governos do mesmo regime que dirigem o País desde então.
No entanto, como
devemos saber, os descontentes continuarão a votar nos mesmos se não
formos capazes de mostrar que podemos fazer mais e melhor do que eles. O
desafio é imenso mas podemos vencer como, mais do que ninguém, os nossos
heróis do 15 de Março nos prometem e garantem.
Viva a FNLA !
Viva o 15 de
Março !
Todos por uma
Angola !
Uma Angola para
todos !
LIBERDADE E
TERRA !
VIVA ANGOLA !