PALESTRA PROFERIDA PELO IRMÃO NGOLA KABANGU,

2º VICE-PRESIDENTE DA FNLA,

SOBRE O 15 DE MARÇO DE 1961 E OS  OBJECTIVOS POLÍTICOS, SOCIAIS, ECONÓMICOS E CULTURAIS, NO CINE S. DOMINGOS, MUNICÍPIO DO RANGEL, AOS 15 DE MARÇO DE 2007 

O 15 de Março de 1961, contrariamente ao que continua a ser propalado pelas forças obscuras e contrárias às aspirações profundas do Povo Angolano e por todos aqueles que retardam a felicidade, a prosperidade e o bem estar sócio-económico da esmagadora maioria das populações angolanas, tinha um objectivo claro e preciso : LIBERTAR A TERRA, ANGOLA, E O HOMEM ANGOLANO. 

NO PLANO POLÍTICO 

Passados quarenta e seis anos, podemos afirmar que a terra, Angola, portanto o espaço físico nos seus limites geográficos, está realmente liberta. Mas, o mesmo não se pode dizer do Homem Angolano, aquele que mais sacrifícios consentiu para libertar Angola das garras do odioso colonialismo português. 

Com efeito, trinta e dois anos depois da proclamação da independência de Angola, em condições dolorosas, de profundo e dilacerante conflito político-militar, a grande maioria dos Angolanos, sobretudo os das zonas suburbanas e rurais, continua privada dos seus direitos fundamentais, praticamente sem liberdade de expressão e de opinião. Frequentemente, os seus direitos mais elementares são violados sem que  possa recorrer aos órgãos de justiça. Os seus direitos políticos, embora definidos pela Constituição e por outras leis, nunca são respeitados, não podendo, por conseguinte, emitir qualquer opinião sobre a gestão do seu próprio país. 

A histórica e gloriosa UPA (União das Populações de Angola), o Partido que concebeu, estruturou, organizou e iniciou a Luta de Libertação Nacional, tinha um programa político claro e preciso: instaurar em Angola um Estado Democrático de Direito onde todos os Angolanos, sem excepção, deveriam viver em plena liberdade como verdadeiros cidadãos, com todas as garantias políticas e democráticas de participação na gestão do seu país. 

NO PLANO  ECONÓMICO 

No plano económico as coisas são bem piores. Os Angolanos vivem em condições económicas inaceitáveis, salários baixíssimos, poder de compra quase nulo, alimentação deficiente, altas taxas de desemprego, sem transportes dignos e outras privações. Em suma, a grande maioria dos Angolanos vive em condições de extrema pobreza. 

Ao desencadearmos a Luta de Libertação Nacional a 15 de Março de 1961, os nossos objectivos eram claros e precisos: libertar o homem angolano, restituir-lhe a sua dignidade e reabilitá-lo nos seus direitos fundamentais, o que deveria permitir-lhe usufruir das enormes riquezas do seu país. O que assistimos hoje, é precisamente o contrário. Os Angolanos são os últimos em tudo, na sua própria terra, assistindo impotentes ao açambarcamento das suas riquezas por estrangeiros com o apoio jurídico-administrativo dos detentores do poder, que usam todos os artíficios para constituir grandes impérios económico-financeiros. 

As riquezas de Angola são mal distribuídas, cabendo aos Angolanos as migalhas. Nós não somos contra os investimentos estrangeiros, como muitos poderão pensar erradamente, mas exigimos tão somente que a exploração das riquezas de Angola, o petróleo, os diamantes, o ferro, o cobre, o café, a madeira e outros recursos naturais beneficie primordialmente os donos da terra, aqueles que se bateram e sofreram por ela, e não o contrário.  

O programa  económico da histórica e inesquecível UPA, a percurssora da Luta de Libertação Nacional, previa a instauração em Angola de uma economia de mercado ao serviço do Homem Angolano, e não para sufocá-lo. O que se constata hoje, é que os Angolanos não são tidos nem achados, através dos seus representantes na Assembleia Nacional, quando se assinam os chorudos e opacos contratos comerciais com países cujas reais intenções políticas e outras são desconhecidas. 

NO PLANO SOCIAL 

No plano social, os desequilíbrios são gritantes. A grande maioria dos Angolanos, de Cabinda ao Cunene, não tem a assistência médica e medicamentosa miníma. Não tem habitação condigna, nem beneficia, como devia, de protecção e de apoio social do Governo. As mais variadas epídemias, tais como a cólera, a febre tifóide, a doença do sono e a tuberculose pululam em todo o território. A malária, as doenças diarréicas e o sida continuam a ceifar as populações economicamente débeis, sem que se registe uma intervenção programada e eficiente por parte dos organismos sociais do Governo. 

Os Angolanos em idade de aposentação vivem dificilmente devido às irrisórias pensões que recebem e sem possibilidades de poderem ser acolhidos em centros ou hospícios para pessoas da terceira idade. A grande maioria tornou-se mendiga e completamente marginalizada. 

A UPA previa no seu programa Económico e Social condições sociais dignas para todos os Angolanos em idade de aposentação, garantindo-lhes o minímo para a sua sobrevivência. A FNLA, no seu Projecto de Sociedade, define uma política social clara e abrangente, que permite enquadrar e apoiar socialmente os nossos mais velhos e suas respectivas famílias. O que se vê hoje, é simplesmente aberrante. Os velhos são marginalizados, abandonados pelo Governo, não lhes restando outra solução senão praticar a mendicidade ou terminar os seus dias junto de contentores de lixo, debaixo de prédios inacabados ou mesmo em plena rua! É este o fim reservado aos nossos velhos, quando se sabe que a exploração do nosso petróleo e dos nossos diamantes aumenta cada dia e as receitas arrecadadas são fabulosíssimas!...  Mas, o destino delas é praticamente desconhecido. 

NO PLANO CULTURAL 

Com o intituito de desacreditar e denigrir a UPA e, através dela, o heróico Povo Angolano que se levantou como um só homem em 15 de Março de 1961, para dizer basta a opressão e exploração coloniais, os nostálgicos  continuam até aos nossos dias a afirmar que o histórico e glorioso 15 de Março de 1961 tinha objectivos raciais e discriminatórios, numa só palavra, segundo os mesmos, foi uma luta dirigida fundamentalmente contra o homem branco, mestiço e os “assimilados”. Que tamanha monstruosidade e mentira grosseira! Na sua Plataforma Política, publicada em 1959, portanto, dois anos antes do ínicio da Luta de Libertação Nacional, a UPA já definia a composição da futura nação Angolana quando dizia textualmente o seguinte : A NAÇÃO ANGOLANA SERÁ COMPOSTA DE TODOS OS ANGOLANOS, SEM DISCRIMINAÇÃO DE RAÇAS, DE CREDO RELIGIOSO E DE CULTURAS, E DE TODOS OS PORTUGUESES QUE ESCOLHEREM ANGOLA COMO SUA TERRA. 

Como podeis, pois, constatar a UPA tinha uma noção profunda das realidades históricas, políticas, sociais e culturais de Angola, porquanto ela admitia que a longa colonização de Angola, cinco séculos, tinha introduzido novos dados na composição sociológica de Angola e de seus habitantes. A FNLA, a digna sucessora da UPA, não só retomou os princípios fundamentais da Plataforma Política da mesma, mas foi mais longe, definindo no seu Projecto de Sociedade sem ambiguidade e com suficiente clareza, uma Angola nova e moderna, um Estado Democrático de Direito onde todos os Angolanos, de todas as raças, deverão viver irmanados e unidos com direitos e deveres iguais. 

Por conseguinte, afirmar que a Luta de Libertação Nacional iniciada a 15 de Março de 1961 tinha desígnios racistas, é não só desonesto, mas também e sobretudo criminoso, porquanto são os actuais detentores do poder e seus parceiros que praticam políticas discriminatórias, penalizando sobremaneira a grande maioria dos Angolanos, sobretudo os da Angola profunda, ou para ser mais claro e preciso, os habitantes das zonas suburbanas e rurais onde grassam a miséria, as mais diversas doenças, o analfabetismo e a profunda frustração! 

A UPA, antes, e hoje a FNLA, sempre tiveram uma visão nacional, preconizando políticas de profundo entrosamento dos diferentes componentes da Angola moderna e democrática. É com base nesta visão, que prosseguimos a nossa luta política e democrática para a dignificação do Homem Angolano de Cabinda ao Cunene, porque acreditamos na Angola nova, moderna e democrática. 

Eis, de maneira sucinta os objectivos politicos, sociais, económicos e culturais do histórico e glorioso 15 de Março de 1961, a verdadeira e única data do ínicio da Luta de Libertação Nacional, o princípio do fim do império colonial português em África, uma luta que durou quatorze anos, vingou e que culminou com a indepedência de Angola, que igualmente impulsionou a libertação dos outros territórios sob colonização portuguesa, e finalmente democratizou Portugal. 

HONRA E GLÓRIA AOS HERÓIS VIVOS E MORTOS DO HISTÓRICO E GLORIOSO 15 DE MARÇO DE 1961!

ANGOLA OYÉ !

FNLA OYÉ !

Muito obrigado.  

Em Luanda, aos 15 de Março de 2007.-